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Druidas

Este texto tem como finalidade falar sobre os Druidas. Mas, como estes eram membros de uma elevada estirpe dos Celtas, começarei por falar das origens do povo celta.
Segundo Anthony Duncan, “as suas origens remontam ao final da Idade do Bronze, sendo, no entanto, um povo essencialmente da Idade do Ferro, conhecidos pelos Gregos como Keltoi e pelos Romanos, como Celta Galli.” Os Celtas teriam migrado na direcção oeste, “penetrando na Grã-Bretanha durante o primeiro milénio antes de cristo, ligando-se pelo casamento dos 1ºs habitantes. Toda a área da Inglaterra e do País de Gales dos nossos dias foi povoada pelos chamados celtas de língua bretã, da qual derivam os dialectos do País de Gales, da Cornualha e da Bretanha francesa. Um ramo completamente da raça celta invadiu a Irlanda, partindo da Espanha, por volta do século IV a.c. afastando os primeiros habitantes ou por meio de guerra ou por ligações matrimoniais. Estes últimos utilizavam a língua gaélica, da qual deriva o irlandês, o gaélico escocês e o dialecto da ilha de Mann.
Até ao crescimento do poder romano, os Celtas eram a força dominante, tendo sido a própria Roma saqueada por eles em 385 a.c.
Esta situação não durou muito tempo e entre 59 e 48 a.c. Júlio César obteve vitória sobre as tribos celtas que viviam na Gália (a França dos nossos dias).
Françoise de Roux e Christian-J. Gruyon Varc’h escreveram, revendo as datas tradicionais : «no séc. V os Celtas já estavam instalados na Europa Ocidente, havia bastante tempo.» “A civilização celta só mais tarde a História dá conhecimentos concretos sobre a invasão da Itália do norte no início do séc. IV, tomada de Roma em 390, incursões nos Balcãs e saque de Delfos em 289 a.c. “, “Devemos considerar seguro que os Celtas já formavam um grupo coerente e organizado numa época muito anterior à Proto-História”. Tal como na Gália e nas Ilhas Britânicas, talvez melhor e mais remotamente, tiveram o seu berço na Alemanha do Sul e na Boémia. Não é impossível, bem pelo contrário, que eles ali se tenham instalado desde a Idade do Bronze no segundo milénio.
Escrevem ainda estes autores que “com alguma certeza... as civilizações da Idade do Ferro, as de Hallstat e de La Tène (do nome de estações arqueológicas epónimas, na Áustria e na Suíça) são célticas... os Celtas estavam implantados na Europa Central e Ocidental... apresentam um conjunto de traços homogéneos que persistem na Gália, na Alemanha ocidental, na Europa central e danubiana e nas Ilhas Britânicas até ao período histórico. E embora Albert Gumier não concorde, o certo é que “as descobertas e investigações mais recentes tendem mesmo a provar que a nacionalidade céltica deve, obrigatoriamente, estar ligada à civilização de Hallstat”.
Encontram-se vestígios indiscutíveis da presença dos Celtas em toda a zona ocidental e meridional da Polónia, na Hungria, e nos Balcãs, onde a progressão se fez segundo o eixo do Danúbio. Mas o principal habitat céltico, do período de Hallstat até ao fim da La Tène, foi a Gália propriamente dita, da Mancha ao Mediterrâneo, do Atlântico aos Alpes e ao Reno.
Seja como for, a invasão céltica atingiu muito rapidamente a Península Ibérica, a Itália do Norte, o sul de França, todas as regiões do Reno, da Suíça aos Países Baixos e, provavelmente a partir da Bélgica às Ilhas Britânicas, que se tornaram posteriormente o último refúgio da presença céltica.
A extensão geográfica do mundo céltico ficou, portanto, consideravelmente reduzida depois da Antiguidade: existem países célticos actuais, mas há também (e a sua extensão é muito maior) países que outrora foram célticos, do Tejo ao Danúbio e da Gália Cisalpina à Escócia, com a consciência de uma certa unidade.
Na Europa o seu estabelecimento foi duradouro.
Voltando aos Druidas (drui em irlandês, derwydd em galês) estes eram videntes, com um conhecimento íntimo do mundo natural, que caminhavam entre o mundo exterior e Annwn (o mundo do Além). Podiam ser homens ou mulheres e eram xamãs, mediadores, conhecedores e detentores de sabedoria. Tinham funções tanto de sacerdotes como de juízes.
No livro “Mistérios de Avalon” a palavra druida (Druid) parecia derivar de múltiplas raízes, entre as quais “drus”, “dervo”, “daur” e “derw”- termos estes que designavam, todos eles, “carvalho” ou “madeira de carvalho” respectivamente em grego, gaulês (da Gália, futura França) irlandês (na versão gersa, um idioma gaélico cujas derivações subsistem ainda hoje, no norte da Escócia) e galês.
Hoje em dia, “Druida” di-se “drui” na língua irlandesa e “derwydd” em gaélico. Reflecte-se aqui a veneração que eles dedicavam ao carvalho, simbolicamente considerado como a mais poderosa expressão de uma natureza pujante e ligada à Terra. Para eles toda a Natureza era sagrada, mas em especial, as árvores que representavam a ligação xamânica entre “Mãe-terra e Pai-céu”.
A organização social dos celtas era baseada num extenso grupo de famílias aparentadas, que partilhavam suas terras agrícolas. Na Irlanda foi possível estudar o protótipo da sua organização política, o twath, ou “reino”, estruturado em três classes: o rei, os nobres e os homens livres, a que se agregavam, sem direitos políticos, os servos, artesãos, refugiados e escravos.
Nas narrativas insulares raramente se pode falar de “classe” social, no sentido actual do termo, já que só são correntemente evocados os dois tipos de personagens que animam os ciclos mitológico e épico: os “Druidas” e os “guerreiros”.
A literatura irlandesa, aproveitando a descrição sumária que César propõe da Gália independente, sublinha a proeminência absoluta dos Druidas. Em virtude do seu sacerdócio, têm muitas actividades ou responsabilidades que influenciam directamente a política e a administração. E se houve especializações, teóricas ou práticas, na Irlanda e na Gália, elas não mudam nada o princípio que defende que a religião dirige tudo.
Eram monógamos, mas admitiam o concubinato. Além dessa estrutura secular, a unidade cultural era assegurada por uma hierarquia de sacerdotes (Druidas), Bardos e conhecedores do direito consuetudinário.
Na guerra eram muito bravos, mas indisciplinados na vida civil. A sua arte é notável, culminando nas iluminuras medievais irlandesas. Gostavam de jóias, cores vivas e bordados. Introduziram na Europa o uso de calça na indumentária masculina e pensa-se que inventaram o presunto e o toucinho defumado (bacon).
Os celtas conheciam, como todos os indo-europeus, classes sociais definidas por funções especializadas:

Sacerdotal- sacerdotes ou Druidas,
Guerreira- nobreza militar ou flaith,
Produtora- artesãos.

Segundo fontes clássicas, os Druidas eram considerados membros da nobreza. Alguns tinham um estatuto equivalente ao da aristocracia guerreira- os Equitas-, constituída pelos que, nas batalhas, montavam a cavalo ou conduziam carros de combate; por outras palavras, os Cavaleiros. Além disso, sabe-se que era permitido aos Druidas usarem seis cores nos seus tartãs, privilégio geralmente apenas reservado às rainhas. Só os reis podiam usar sete cores.
Ainda de acordo com os clássicos, os Druidas dividiam-se em videntes, profetas e bardos. Algumas correntes revivalistas do druidismo, remontando ao séc. XVIII, dividem-nos entre ordens de Bardos, Vates (ou “Ovates”) e Druidas.
Portanto os Druidas da Antiguidade eram os chefes espirituais do povo celta, a quem serviam de sacerdotes, sacerdotisas, conselheiros, genealogistas e mestres.
Os Druidas, enquanto celtas e europeus, foram influenciados pelas crenças espirituais das suas tribos, dos respectivos deuses tribais e dos ciclos naturais da Terra. Não era invulgar a participação de mulheres nos ritos druídicos celtas, principalmente nas suas vertentes mais próximas do xamanismo, inspiradas no culto da Natureza e das forças naturais que a regem.
A presença feminina nas ordens druidas foi-se desenvolvendo em crescendo, tendo atingido o seu auge na época anterior à ocupação romana.
Os Celtas tiveram uma vida material das mais simples, um sistema económico eficaz e robusto e princípios políticos estáveis.
O bom funcionamento do sistema político tradicional repousava sobre o equilíbrio perfeito, o entendimento entre o druida e o rei, sendo este oriundo da classe guerreira controlada pelos druidas.
Mas se o rei não podia ultrapassar o druida, este também não podia desempenhar normalmente as suas funções fora da corte real.
E enquanto o druida usufrui de todo o tipo de privilégios (antes de mais a isenção de pagar impostos e de cumprir serviço militar, que não o impede, contudo, de combater se tiver desejo ou necessidade) e a sua autoridade e prestígio não têm limites, o soberano céltico vê-se submetido a muitas interdições, as geasa irlandesas: não abandonar o território, não falar antes do seu druida, não passar mais de oito noites longe da residência, são exemplos das interdições mágico-religiosas às quais está sujeito.
A sociedade considera-o mais como um moderador ou distribuidor de riqueza do que como detentor de poderes civis e militares. É por ele que sobem os impostos e os tributos dos vassalos e dos povos submetidos ou aliados, e é dele que vêm as dádivas e as acções generosas.
O arquétipo do soberano céltico é o daquele a quem uma boa administração e um poder material considerável permitem dar generosamente, sem avareza nem repulsa.
Contrariamente aos faraós egípcios e aos reis de algumas tradições semitas, “o rei céltico não é sacerdote e não exerce qualquer função religiosa”. O rei celta não tem funcionários. Aquilo que dá constitui sempre uma recompensa, um acto de generosidade que cria ou reforça um laço pessoal, nunca é um pagamento ou o soldo correspondente a uma função exercida regularmente, de acordo com um estatuto ou uma legislação definida.
A linha céltica é a mais antiga a que se pode remontar no domínio geográfico que lhe é atribuível.
A utilização da escrita depende da concepção céltica da verdadeira sabedoria. Ao contrário do que se está habituado, os celtas nunca utilizaram a escrita para transmitir à posteridade um qualquer saber. Não significa que não a conhecessem, mas apenas negligenciaram a sua utilização como instrumento de arquivo e de memorização.
Os celtas continentais começaram por escrever, na Gália meridional, em caracteres gregos; na Gália cisalpina adoptaram o alfabeto lepontino de origem etrusca, os das regiões hispânicas e dos Pirinéus utilizavam o alfabeto ibérico.
Na Irlanda, a natureza da escrita ogâmica consistia em traços transversais, horizontais ou oblíquos, de um lado, e, de outro, numa linha vertical.
Os druidas dominavam quase todas as áreas do conhecimento humano, cultivavam a música, a poesia, tinham notáveis conhecimentos de medicina natural, de fitoterapia, de agricultura e astronomia e possuíam um avançado sistema filosófico muito semelhante ao dos neoplatónicos.
O “irlandês” é a língua celta mais importante e a melhor conhecida dos celtistas. Os documentos mais antigos consistem em algumas pequenas inscrições ditas “ogâmicas” (do nome do alfabeto que serviu para os escrever) datados dos sécs. V-VI.
Nenhum povo céltico da Antiguidade deixou um único vestígio escrito da existência da sua língua, salvo os restos da epigrafia gaulesa do sul de França, Espanha e do norte de Itália que são museus do ponto de vista quantitativo.
Um dos monumentos mais importantes da literatura irlandesa medieval é precisamente o Senchus Mór, recolha de leis, muitas das quais foram aplicadas até ao séc. XVIII, não obstante a ocupação.
Em relação à habitação, o mundo céltico ignora os aglomerados urbanos à moda grega e romana.
A base da habitação é, na Irlanda, o dún ou o ráth, a habitação do chefe, era uma casa de madeira ou palácio rústico em torno do qual se erguem as cabanas de taipa e colmo dos artesãos e dos servos. A segurança é garantida por um fosso ou circunvalação e, mais frequentemente, por uma paliçada de madeira.
Os materiais essenciais da civilização céltica são a madeira e o metal. Os celtas foram excelentes artesãos de têxteis (lã, linho e cânhamo) e do couro.
Antes da decadência da Gália, cerca de dez séculos mais cedo, os Celtas tinham-se tornado sedentários, agricultores e, sobretudo, criadores de gado. Avaliavam a riqueza pelo gado ou pelas mulheres escravas.
Os reis e os nobres gostavam de jóias de ouro, pedras preciosas, esmaltes, de armas ricamente ornamentadas, dos castões de marfim trabalhados, dos pregadores delicados e dos tecidos coloridos e bordados a ouro e prata.
O ouro, sobretudo, faz parte de todas as sepulturas reais. Os Celtas apreciavam, acima de tudo, o fausto e a alegria dos festins que duravam vários dias ou semanas.
Quando um rei da Irlanda recebia um dos seus pares, estendiam-se canas no chão e para beber vinho, cerveja ou hidromel em taças ou chifres de ouro com pedras preciosas incrustadas e sentavam-se em fardos de palha. Nenhum chefe céltico tinha os meios materiais ou militares ou a ambição de fundar um grande Estado.
Os grandes soberano-modelo eram míticos e não históricos.
Os celtas eram politeístas, adoravam vários deuses e os seus rituais, fortemente impregnados de magia, realizavam-se ao ar livre, em clareiras de florestas e locais junto a fontes ou fossas profundas que eram preenchidas com oferendas.
A particularidade da religião céltica assenta no facto de não possuir apenas sacerdotes, mas também uma classe sacerdotal hierarquizada, organizada e profundamente estruturada.
A existência dos Druidas tem sentido e realidade no quadro de uma sociedade céltica viva e organizada onde tudo se baseia no “sagrado”.
O carácter universal do sacerdócio druídico evidencia-se quer pela sua extensão geográfica (a dos Celtas) quer pelo centro do qual se reclama.
A primeira e talvez mais importante doutrina dos Druidas encontra-se inscrita na etimologia do seu nome: drui-uid-es, “os muito sábios” sendo a ciência aqui tomada na acepção tripla de sabedoria, ciência sagrada e conhecimento.
O nome dos Druidas congrega a sabedoria, o conhecimento e o saber, pela etimologia real e a força (ou seja, essencialmente, a capacidade de traduzir o seu saber em prática, pela etimologia simbólica).
Os Druidas oficiavam as cerimónias de propiciação dos deuses e deusas e eram quase sempre, mas não exclusivamente homens.
Os Druidas acreditavam na imortalidade da alma, que buscaria o seu aperfeiçoamento através de vidas sucessivas (reencarnação). Acreditavam que o homem era responsável pelo seu destino de acordo com os actos que livremente praticasse. Toda a acção era livre, mas traria uma consequência boa ou má segundo as obras praticadas.
Teria ainda a ajuda dos espíritos protectores e teria a responsabilidade de passar os seus conhecimentos adiante para que as pessoas estivessem igualmente aptas a entender essa lei, conhecida hoje por lei do Karma.
Os Druidas desapareceram da história à medida que crescia o domínio da igreja em Roma.
Os Celtas desapareceram porque a estrutura política e religiosa da sua sociedade era inadaptável à concepção romana do Estado. Uma vez eliminada a classe sacerdotal, submetida a classe militar e cristianizadas as classes artesanal e rural, a Gália, reduzida à nova burguesia comerciante das cidades e aos grandes proprietários que exploravam exércitos de escravos e de servos, já não tentou separar-se do Império. Quando se revoltaram, foi sempre para conseguir um lugar melhor: nenhum dos “imperadores gauleses” do séc. III renegou a romanidade. E dois séculos mais tarde, num país não romanizado- a Irlanda-, foi a própria classe sacerdotal dos Druidas que facilitou a conversão ao cristianismo e lhe forneceu os seus primeiros prelados. O mundo céltico continental tornou-se, assim, solidário com o Império, enquanto o mundo céltico insular, depois do desaparecimento do Império, se tornou solidário com o cristianismo.
Tem-se uma ideia aproximada da cultura que eles teriam sido capazes de transmitir, através do último legado do mundo céltico à cristandade medieval: a literatura arturiana e a lenda do Santo Graal.

Helena Rodrigues
Departamento de Druidismo da PFI-Portugal